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Depois de ver as mais diversas publicidades anti-tabaco, continua a fumar? Existe por ai muita publicidade anti-tabaco a verdade é que algumas são bem criativas…já agora pare de fumar que isso faz mal!


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    Manuel Pina

    O Tabagismo

    Fui dependente do tabaco desde os meus onze anos de idade, até aos trinta e sete. Passei por todas as fases que um viciado normalmente passa: desejo de afirmação, prazer de fumar e por fim, dependência total. Fuma-se porque se está triste ou deprimido, porque se está alegre, por isto ou por aquilo, fuma-se por tudo e por nada.

    No princípio o ciclo preparatório, o início das escolas mistas, a necessidade de me afirmar perante as miúdas, publicidade por todo o lado a todas as marcas de cigarros, desde cartazes em transportes públicos, onde era permitido fumar, rádio, televisão, outdoors, etc. Era socialmente admissível a um adulto fumar em qualquer lado. Fumava-se na sala de espera do posto médico, no próprio consultório havia cinzeiros com pontas de cigarros e fui algumas vezes atendido por médicos em pleno acto de fumar. Nas mercearias, padarias e em todos os sítios que se possam imaginar, o tabaco estava presente. Em programas de televisão o cinzeiro fazia parte do cenário, os telejornais eram transmitidos entre fumaças dos apresentadores e apresentadoras, enfim, quem não se iniciasse no tabaco era de certa forma discriminado. Lembro-me de andar na “pendura” do carro eléctrico para conseguir a viagem gratuita. Inventava horários escolares para sair bem cedo de casa, porque se viajasse de eléctrico antes das 7.00 horas da manhã, tinha direito ao chamado “bilhete operário”, que me permitia a viagem gratuita de regresso. Arquitectava “esquemas” para conseguir bilhete de correspondência que naquele tempo havia entre o Metropolitano e a Carris e que me permitia o transporte de Sete-Rios para Benfica e vice-versa, sem pagar 2$20 que era quanto custava o bilhete, amealhando assim, dinheiro para o tabaco que custava então uma média de 4$50 um maço de cigarros. Devo dizer que, juntamente com outros colegas, éramos já conhecidos dos funcionários que trabalhavam normalmente naquelas carreiras.

    Naquele tempo, proibia-se um menor de fumar apenas por esse motivo e ponto final. Não havia qualquer esclarecimento sobre os seus malefícios, também os adultos não tinham bem a noção do mal resultante deste produto, não se tinha ainda aprofundado cientificamente as doenças que o tabaco provoca. Lembro-me do meu pai me dizer uns anos mais tarde:
    - Agora já tens 18 anos, não precisas de sair à noite para fumar, podes fazê-lo aqui em casa. No meu subconsciente, os anos que esperei por este momento! Finalmente sou adulto e posso exibir as minhas fumaças em público! Foi uma espécie de promoção, ou melhor, o culminar da minha emancipação!

    Seguiram-se anos com o tabaco como o meu melhor amigo e companheiro. Bons e maus momentos, sempre de cigarro em riste, mas já com bastante esclarecimento sobre os seus malefícios. A proibição de fumar começava a ser um facto em todos os sítios que referi atrás, a publicidade ao tabaco começava a fazer-se no sentido inverso à que também já referi mas, na minha situação pessoal, pensei ser um caso perdido em que não havia nada a fazer. Estava irremediavelmente “agarrado” a esta droga. Continuei ainda durante alguns anos, a enganar os outros e a tentar enganar-me a mim próprio, dizendo que o prazer que o fumo me dava, era muito superior a qualquer malefício e, ainda mais grave, dizia que me sentia um jovem, que continuava saudável e com força, quando na verdade, depois dos trinta anos, comecei a sentir sérias evidências de envelhecimento precoce. A nível estético, a minha dentição começou a deixar de ter um aspecto limpo, por mais que a escovasse, se por qualquer motivo precisasse de fazer uma corrida para apanhar um transporte ou por outro motivo qualquer, já nem sequer esboçava o esforço, porque já não me sentia capaz. Comecei a ter pequenas desavenças com a minha mulher porque, como fumava em casa, não havia a higiene devida, havia cinza nos naperons e o ar poluído era por demais evidente. Como somos ambos ambiciosos no aspecto de prosperidade de vida, o tabaco limitou-nos em bastantes projectos a nível financeiro. A minha filha, que desde bebé sofreu bastante, obviamente pelo facto do pai ser fumador, começou a dirigir-me fortes críticas à medida que ia crescendo e, o mais dramático é que eu tinha a consciência de que elas tinham razão e, por esse facto, comecei a sentir-me diminuído e fragilizado em relação às pessoas que eu mais prezo na vida. Comecei então, uma luta surda e silenciosa comigo mesmo. Tinha dias em que conseguia fumar menos do que o costume e ficava contente, tinha reduzido! Outras vezes fumava muito mais do que o costume, mas a culpa era sempre disto ou daquilo, nunca era minha. Comecei por me mentalizar de que tinha de ser muito mais forte do que tudo isto e mostrar a mim próprio a minha verdadeira força. Não sabia quando nem como, mas comecei a ter a certeza de que um dia, iria ser capaz de me desprender definitivamente deste meu grande inimigo de estimação que me andava a roubar a saúde, a carteira e a separar-me lentamente dos meus ente queridos.

    Todos os dias o meu último cigarro era fumado ao deitar, na cama. Só assim adormecia satisfeito, com a “beata” ali no cinzeiro da mesinha de cabeceira, toda a noite a deitar “cheirinho”. Não posso precisar o dia nem o mês, mas sei que foi em 1996 e era um domingo, tinha então trinta e sete anos. Depois deste ritual, senti umas batidas sincopadas no meu coração e a boca secou-se-me. A minha mulher já dormia. Levantei-me, fui à cozinha beber um copo de água e depois fui à casa de banho. Aqui, tenho uma bancada em pedra mármore onde está encastrado o lavatório e um conjunto de três espelhos dispostos em ângulo recto que permitem vermo-nos de três ângulos em simultâneo. Olhei-me fixamente em todos estes ângulos, insultei-me a mim próprio com nomes obscenos, as lágrimas saiam-me descontroladamente, soluçava. Comecei então um diálogo comigo próprio que durou quase uma hora, até conseguir obrigar-me a jurar que no dia seguinte iria sair de casa sem tabaco. Quando regressei ao quarto, a minha mulher estava acordada e perguntou-me o que se tinha passado. Respondi-lhe que tinha tido uma pequena indisposição, mas já tinha bebido um copo de água e estava tudo bem. É evidente que no dia seguinte, o meu pensamento foi precisamente quebrar a jura. De novo na casa de banho em frente aos espelhos, consegui ter de mim uma mistura de sentimentos. Pena e raiva em simultâneo, mas de uma forma estranha que nunca tinha sentido, uma vontade de me desprezar a mim próprio. A minha mulher, como sempre, conhecedora de mim mais do que eu próprio, apercebeu-se de imediato que algo não ia bem comigo e tentou de uma forma afável começar um diálogo enquanto tomávamos o pequeno-almoço. Respondi-lhe de forma áspera que não tinha nada, que estava tudo bem, engoli à pressa o resto do café com leite, dei-lhe um beijo rápido, seco e desprezível, disse-lhe “até logo” e saí porta-fora sem tabaco na algibeira! No caminho para o trabalho comecei então uma luta à séria. O meu carro já tinha o cheiro do cigarro entranhado, porque era hábito fumar enquanto conduzia, fosse só ou acompanhado, não respeitando ninguém que viajasse comigo. Cheguei ao trabalho, tomei a tradicional “bica”, cumprimentei os meus colegas e tentei fazer tudo normal como fazia todos os dias. Só que a partir de agora sem tabaco. Foi a manhã mais longa de que tenho memória. Cerca das 10 horas, telefonou-me a minha mulher para saber como é que eu estava, respondi-lhe que estava tudo bem e desliguei-lhe o telefone. Eu não queria alterar absolutamente nada do meu dia-a-dia. Almocei normalmente, a tal “bica” depois de almoço e um desejo enorme de fumar! Mas comecei por me elogiar: – caramba pá! Já conseguiste estar meio-dia sem fumar! Não me digas que não vais conseguir o resto do dia! Vá lá, tenta um dia de cada vez, vais ver que consegues, aquela porcaria não é mais forte do que tu! À noite, a mulher volta novamente com a mesma pergunta: – amor, o que é que se passa contigo? Enchi-me de coragem e respondi-lhe em voz alta: – estou a tentar deixar de fumar! Já não levei tabaco para o trabalho e ainda não peguei hoje num cigarro. Recebi de imediato um enorme beijo de incentivo, uma alegria imensa espelhada na cara e de seguida vai ao quarto da filha que estava a estudar; – Raquel vem cá, temos uma grande notícia, o teu pai deixou de fumar! Lá vem ela em passo de corrida, abraçou-me com força e deu-me dois beijos repenicados que ainda hoje os guardo na memória com muita ternura. Parabéns pai! Eu sabia que ias conseguir! Perante este quadro, eu não fui capaz de me controlar e entrei num pranto enorme. Era o medo de não conseguir levar a minha palavra até ao fim. Agora a jura não era só comigo, era também com a mulher e a filha. Seguiram-se meses de uma luta sem tréguas, mas sempre com este método: “hoje não vais fumar!” Sempre um dia de cada vez e assim comecei a “coleccionar” vitórias diárias até chegar ao fim do primeiro mês com 12.000$00! (hoje seriam cerca de €60.00). Sim, porque a parte monetária era também uma das minhas armas nesta luta e então comecei a pôr de parte o dinheiro que gastava em tabaco, concluindo assim, que o melhor aumento de ordenado que tive até hoje, foi precisamente quando larguei este inimigo. Comecei então a ter condições para fazer planos mais ambiciosos, carros que tivera até então, tinham sido todos em segunda mão, passei a imaginar-me com carro novo. O receio de engordar levou-me a ter mais cuidado com a alimentação e ao hábito de fazer exercícios físicos de forma gradual. Comecei a gostar mais da natureza, as plantas começaram a ter cheiro, adquiri o “vício” da pesca, de andar de bicicleta, do ar livre, a convivência em casa passou a ser muito mais saudável, enfim posso dizer que renasci das “cinzas” e hoje passados quinze anos, sinto-me completamente recuperado, alérgico ao tabaco e fisicamente muito mais em forma do que naquele tempo. Mas não foi nada fácil, ao fim de um ano ainda tinha saudades daquela droga! Ainda pensava num dia de cada vez! Valeu definitivamente, para além da minha força de vontade, a mulher e filha maravilhosas de que me orgulho ter, o resto da família: pais, sogros, irmãos, primos e toda e gente que à medida que ia sabendo da notícia me dava incentivos de coragem e ânimo para continuar nesta luta e, por fim o tempo! Esse que tudo cura e tudo faz esquecer, esse que nos faz dizer: – “dá tempo ao tempo”.

    Por vezes zangamo-nos com pessoas, por coisas “mesquinhas” sem importância, só porque nos caiu mal uma palavra ou uma acção menos ortodoxa, porque é que não conseguimos coragem para nos zangarmos definitivamente com um inimigo que nos rouba o dinheiro e a saúde? O tabagismo é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a principal causa de morte evitável em todo o mundo. A OMS estima que um terço da população mundial adulta, isto é, 1 bilião e 200 milhões de pessoas (entre as quais 200 milhões de mulheres), sejam fumadores. Pesquisas comprovam que aproximadamente 47% de toda a população masculina e 12% da população feminina no mundo fumam. Enquanto nos países em desenvolvimento, os fumadores constituem 48% da população masculina e 7% da população feminina, nos países desenvolvidos a participação das mulheres mais do que triplica: 42% dos homens e 24% das mulheres têm o hábito de fumar. O fumo é responsável por 30% das mortes por cancro e 90% das mortes por cancro de pulmão. Os outros tipos de cancro relacionados com o uso do cigarro são: cancro da boca, laringe, faringe, esófago, pâncreas, rim, bexiga e colo do útero. O fumo está associado a um aumento de risco de uma diversidade de cancros. Dos quase 5 000 componentes do tabaco, mais de 50 demonstraram ser carcinogénicos. Estima-se que 30% de todos os cancros, em países desenvolvidos, estão relacionados com o tabaco. As pessoas que estão próximas de fumadores, especialmente em ambientes fechados, inalam mais de 400 substâncias que podem prejudicar a saúde. Os não fumadores expostos ao fumo do cigarro absorvem nicotina, monóxido de carbono e outras substâncias da mesma forma que os fumadores, embora em menor quantidade. A quantidade de tóxicos absorvidos depende da extensão e da intensidade da exposição, além da qualidade da ventilação do ambiente onde se encontra a pessoa. Os fumadores passivos sofrem os efeitos imediatos da poluição tabágica ambiental, tais como irritação nos olhos, manifestações nasais, tosse, cefaleia, aumento dos seus problemas alérgicos, principalmente das vias respiratórias, e aumento de problemas cardíacos, principalmente a hipertensão arterial e angina de peito. Outros efeitos a médio e longo prazos são a redução da capacidade funcional respiratória, aumento do risco de ter arteriosclerose e aumento do número de infecções respiratórias em crianças. Além disso, os fumantes passivos morrem duas vezes mais por cancro de pulmão do que as pessoas não submetidas à poluição tabágica ambiental.

    Espero sinceramente que este depoimento em que resumo vinte e seis anos da minha vida contribua decisivamente para si que fuma, acredite que o prazer de não fumar é muito superior ao de fumar. Para si que não fuma, por favor não pense que o problema não lhe pertence e sempre que puder, divulgue, ajude e esclareça. O tabagismo é um flagelo.

    Manuel Pina

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